Logo hoje, dona Ju?!

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Sete da manhã e meu sono é interrompido pelo alarme agonizante do celular, não pode nem uma soneca, dali a meia hora eu tenho reunião na empresa. Agilizo a saída da cama quentinha e vou direto pro chuveiro gelado. Vou pra cozinha enrolada na toalha procurar algo para comer, abro a geladeira e vejo uma garrafa de vinho cheia de água. Apenas. A comida acabou deve ter umas duas semanas e eu simplesmente não tive tempo de comprar. Mentira, não tive saco mesmo. Odeio mercado, odeio carrinhos de compra, odeio escolher produtos e comparar preços. Conheço pelo menos umas dez amigas que também odeiam. Inclusive minha mãe, nunca foi ao mercado, sempre entregava uma listinha das coisas que ela queria na mão do meu pai e ele que se virasse pra lá. Agora que ela aposentou deve continuar fazendo a mesma coisa. E meu pai sempre vai, sem reclamar. Acho que ele gosta.

Volto correndo pro quarto para trocar de roupa e meu telefone toca, era o cliente. O voo estava atrasado e ele só ia chegar lá pelas onze da manhã. Pediu mil desculpas. Já que eu havia ganhado umas horas para ficar de bobeira no dia, vesti um short, uma camiseta, coloquei meu par de chinelos e fui pra padaria do lado de casa tomar café.

Atravessei a rua e um idiota que passava do meu lado fez um barulho escroto com a boca e disse “depois reclama se alguém pegar de jeito”. PEGAR DE JEITO. Eu ouvi, entendi claramente o que ele quis dizer, respirei fundo e dei mais dois passos calada.

Nessa hora o sangue sobe. O corpo entra em colapso, dá vontade de chorar, de gritar, de enfiar uma voadora na cara da pessoa.

No espaço de três segundos depois da sonora frase desse idiota e do meu corpo ter um colapso nervoso, eu parei. Não aguentei. Pensei na minha mãe, nas minhas tias, nas minhas amigas. Pensei nas meninas do trabalho e na nossa luta diária para as piadinhas machistas se interromperem, pensei nas vezes em que fui a festas e fui assediada. Mão no cabelo, mão no braço… pensei em todas as vezes que meu pai tentou desesperadamente me proteger de qualquer coisa que pudesse afetar minha formação, pensei em todas as vezes que meus pais me ensinaram a me defender, a não ficar calada, a enfrentar.

No meio desse turbilhão de pensamentos me ocorreu uma outra lembrança: eu devia ter uns treze anos e estava parada na rua com minha mãe, esperávamos um táxi para ir para casa. Um homem mais velho veio na minha direção, eu estava de costas e não vi a aproximação, minha mãe olhava para outro lado e de repente se deparou com o cara quase me agarrando. Ela ficou louca, fechou o punho e disse berrando “se você encostar nela, eu mato você” e foi pra cima feito bicho. Ela parecia uma cachorra raivosa querendo atacar. O homem assustou, foi embora parecendo um cachorro medroso, rabo entre as pernas. A expressão no rosto da minha mãe voltou ao normal, ela colocou a mão no meu ombro e continuamos a esperar o táxi como se nada tivesse acontecido. Daquele dia em diante eu entendi que não podia ficar calada. Nunca mais fiquei.

Esse turbilhão de pensamentos que me ocorreu nos três segundos seguintes ao assédio matinal do idiota que passava pela minha rua me fez bicho, cadela raivosa.

Me virei e chamei o cara. Começou o barraco.

Não existe censura para escrever nesse blog. Mas, minha amiga, eu falei barbaridades pra ele. Com o dedo na cara dele, fui pra cima. Não chamei de filho da puta. Porque é sempre assim, até para xingamentos o mundo é machista. O cara é um babaca, idiota, sem noção e a gente xinga quem? A mãe dele, óbvio.

Terminei o barraco falando em um tom de voz surpreendentemente mais calmo “porra, em pleno 2016 e eu tenho que ouvir isso porque estou de short curto na rua? Pelo amor de deus, meu senhor, vira gente, não envergonha a humanidade desse jeito, não”.

O cara, completamente sem ação, foi embora. Enquanto ele se afastava eu ouvi um “que mulher louca”… voltei a gritar “sou louca mesmo, sou completamente maluca e se você não ficar esperto vai achar um monte de louca feito eu na rua, seu imbecil”.

Tinha acabado de sair do banho e já estava suada de novo, toda vermelha, num misto de alívio e tristeza, numa sensação de dever cumprido e com uma raiva sobrenatural por ainda ter que passar por isso. Enquanto eu recuperava a sanidade e caminhava em direção à padaria o zelador do prédio que viu o barraco todo foi na minha direção e falou “poxa, dona Ju, logo hoje?!”. Ele estava triste, a expressão no olhar dele era a expressão de vergonha. Afinal ele é homem, e aquele outro homem o envergonhava com sua atitude machista, inadequada, inapropriada.

– Todo dia é assim, Joaquim. Todo dia a gente tem que lutar, todos os dias a gente tem que enfrentar.

– Mas a senhora não tem medo? Sei lá, eles podem te bater.

– Morro de medo!

– Sabe, ontem a vizinha do 122 estava saindo a noite e o carro dela estava longe, ela foi até o porteiro Sérgio e pediu pra ele acompanhá-la porque ela estava com medo de ir pro carro sozinha. Ele me contou isso hoje de manhã, na troca de turno. Eu fiquei pensando que eu nunca tive medo de andar na rua escura sozinho a noite, mas vocês devem ter, né?

– É, todas as mulheres que eu conheço têm esse medo, Joaquim. Percebe porque é tão difícil pra gente? Percebe que é por isso que a gente precisa lutar?

– Claro, claro.

– Vou lá na padaria, obrigada pelo apoio, Joaquim.

– Dona Ju, essa coisa toda um dia vai melhorar. Eu tenho certeza. Um dia vai todo mundo poder andar na rua sem medo… e parabéns pelo dia da mulher. Todo dia é dia, né?

– É, todo dia é dia. E vai ser assim por muito tempo.

Enquanto comia meu pão na chapa e tomava meu café, lembrei de novo da mamãe, da vovó, das minhas tias, das amigas, das marcelas, das livias, das paulas, das renatas, das thalitas, das anas, das julianas, das maíras, das raquels, das marianas, das carols, das brunas, das tatianas, das sorayas, das flavias, das gabrielas, das camilas, das marias, das thaís, das jordanas, das nathálias, das fernandas, das naras, das grazis, das denys, das marjanas, das luanas, das paolas, das danis, das monicas, das márcias, das robertas e de todas as outras migas que estão sempre comigo, que berram comigo, que fazem barraco e não se deixam abater comigo. Lembrei também de todos os meus amigos homens que estão conosco na luta, que estão de peito aberto para lutar com a gente.

Voltei pra casa cantarolando Pagu. Triste e feliz, aliviada e tensa, cansada e disposta, mas o mais importante: de short curto sim! Porque estava um calor do caralho e se não gostou, foda-se.

Um beijo carinhoso.

A luta continua!

https://amanheceaqui.wordpress.com/

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